Algunos poemas de Almeida Garrett

Este Inferno de Amar
Este Inferno de Amar
Este inferno de amar - como eu amo!-
Quem mo pôs n'alma... quem foi?
Esta cham que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói-
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonh talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão seran a dromi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! desperatar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

Não te Amo
Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
     E eu n'alma - tenho a calma,
     A calma - do jazigo.
     Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
     E a vida - nem sentida
     A trago eu já comigo.
     Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
     De um querer bruto e fero
     Que o sangue me devora,
     Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
     Quem ama a aziaga estrela
     Que lhe luz na má hora
     Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
     De mau feitiço azado
     Este indigno furor.
     Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
     Que de mim tenho espanto,
     De ti medo e terror...
     Mas amar!... não te amo, não.

Destino
Quem disse ã estrela o caminho
Que ela há de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta - "Floresce!"
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai! não mo disse ninguém.

Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

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